domingo, 18 de novembro de 2018

Arranhando as Paredes



Eu nunca fui tão feliz – e tão pelada – quanto naquela época. Dezembro Eu nunca tinha passado um Natal longe da minha família. Natal para mim é sinônimo de família: a de sangue, a agregada, a velha, a nova. A minha família e amigos se reúnem, árvores são enfeitadas, presentes são embalados, biritas são preparadas e quase sempre entornadas. Natal é Norman Rockwell como pano de fundo para um tio bêbado. E eu não mudaria uma vírgula disso tudo por nada neste mundo. Exceto neste ano. Este Natal foi completamente diferente. Rolou Rockwell, mas com um Trepador de Paredes no meio. Como fotógrafo freelancer, Simon tinha um trabalho inacreditavelmente legal. Ele viajava pelo mundo fotografando para a National Geographic, para o Discovery Channel, enfim, para quem precisasse de um fotógrafo nos lugares mais distantes do planeta. Neste Natal, ele trabalharia em algumas cidades da Europa durante a melhor época das férias e passaria dezembro quase inteiro fora. Depois que eu e ele nos tornamos oficialmente nós, tivemos que encontrar um equilíbrio na nossa relação e deixar a vida voltar ao normal. Ele continuava viajando a trabalho para diferentes lugares do mundo – Peru, Chile, Inglaterra – e chegou até a passar um fim de semana na Mansão da Playboy, em Los Angeles, para fazer um “estudo”… Duro, né? Entretanto, quando o meu Trepador de Paredes mochileiro estava em casa, ele estava em casa mesmo, de corpo e alma. Comigo. Fosse no meu apartamento, fosse no dele. Fosse nos jantares com os nossos amigos Jillian e Benjamin, fosse no pôquer com os nossos outros dois casais de melhores amigos. Estava comigo, na minha cama, na dele; na minha cozinha, na dele; no balcão da minha cozinha, no da dele… Em casa. Ao que parecia, porém, Simon sempre costumava passar o Natal longe. Ora ele estava trabalhando em Roma, cobrindo os eventos da Praça de São Pedro, ora no arquipélago de Vanuatu, no Pacífico Sul, lugar que comemora o Natal antes do resto do mundo. Certa vez, passou o Natal no Polo Norte fazendo um boneco de neve. Estranho? Nem tanto. Os pais dele morreram num acidente de carro quando Simon cursava o último ano do ensino médio. Quando tinha dezoito anos, o mundo dele virou de cabeça para baixo. Sem outros parentes, deixou a Filadélfia al-guns meses depois, ao ser aceito na Universidade de Stanford, e nunca mais voltou. Então, sim, o Natal era algo difícil para Simon. 
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